A saúde pública de Sorocaba vive um paradoxo perigoso: profissionais disponíveis, pacientes à espera — e um gargalo estrutural que transforma tempo em risco. A situação veio à tona após o vereador Ítalo Moreira protocolar um requerimento cobrando explicações sobre a demora na realização de exames de cateterismo no Hospital Adib Jatene, referência no atendimento cardiológico da cidade.
O ponto de partida é um caso concreto e alarmante. Um idoso de 69 anos aguarda o procedimento desde 18 de janeiro. Mas o problema não é isolado. Segundo informações apuradas e levadas ao gabinete do vereador, cerca de 40 pacientes estariam na fila, muitos deles idosos, à mercê de um sistema que não consegue responder à urgência que a medicina exige.
O dado mais grave não está na falta de médicos, mas na estrutura. O hospital conta hoje com apenas um equipamento de hemodinâmica, utilizado por diferentes especialidades, como cardiologia e neurologia. Na prática, isso significa disputas por agenda, atrasos acumulados e um ritmo de atendimento incompatível com a gravidade dos casos. Em cardiologia, cada dia de espera pode custar função cardíaca — ou a própria vida.
No requerimento, Ítalo Moreira vai além da denúncia. Adota uma abordagem técnica e objetiva, questionando a capacidade operacional do hospital, os critérios de priorização da fila, o tempo médio de espera, e as medidas adotadas para evitar agravamento clínico, especialmente entre pacientes mais vulneráveis. O vereador também cobra transparência sobre planejamento, custos e a possibilidade de aquisição ou locação de novos equipamentos, deslocando o debate do improviso para a responsabilidade de gestão.
Ao direcionar o pedido não apenas ao hospital, mas também aos órgãos gestores e reguladores da saúde, o parlamentar reforça o papel fiscalizador do Legislativo e envia um recado claro: gargalos estruturais não podem ser naturalizados. Em políticas públicas, a inação também tem custo — e, neste caso, ele é medido em sofrimento, sequelas e mortes evitáveis.
Diante de um sistema que lida diariamente com vidas humanas, a pergunta que ecoa é simples e incômoda: quanto custa não agir? Ao transformar um caso individual em alerta coletivo, o requerimento de Ítalo Moreira expõe o absurdo da espera e reafirma um compromisso essencial com quem mais depende do serviço público quando o tempo passa a jogar contra.



