A crise política em Sorocaba entra em um novo e perigoso capítulo. Servidores municipais, aliados políticos e integrantes do grupo “Café com Elas” — citado no inquérito que tornou Rodrigo Manga réu por corrupção — estão articulando uma mobilização na Câmara de Vereadores com o objetivo claro de pressionar parlamentares contra a abertura de uma Comissão Processante que pode cassar o mandato do prefeito afastado.
O problema é que essa movimentação pode não ser apenas política. Pode se tornar judicial.
Ponte indireta com a máquina pública
Mensagens disparadas em grupos de WhatsApp convocam servidores para comparecerem às galerias da Câmara no mesmo dia em que será lido o pedido de abertura da Comissão Processante. Chefes de setores, coordenadores e ocupantes de cargos estratégicos aparecem entre os articuladores.
O detalhe é grave: a decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região que afastou Rodrigo Manga por 180 dias também o proibiu de manter contato com servidores municipais. A Justiça foi clara ao impor o distanciamento da estrutura administrativa.
Quando chefes nomeados na gestão Manga organizam mobilizações políticas em favor do prefeito afastado, cria-se um atalho perigoso — uma ponte indireta entre o réu e a máquina pública. Isso pode ser interpretado como interferência, descumprimento de medida cautelar e tentativa de obstrução.
Em processos federais, esse tipo de conduta costuma ter consequência.
O grupo citado no inquérito agora vai à Câmara
Chama atenção o envolvimento do grupo “Café com Elas”, liderado por Rosangela — apontada nos autos como beneficiária de valores investigados. O nome do grupo aparece no inquérito que fundamentou a denúncia do Ministério Público Federal.
Agora, integrantes do mesmo grupo articulam presença organizada na Câmara para pressionar vereadores.
A pergunta que fica é: qual o limite entre manifestação política legítima e tentativa de interferência institucional quando o réu está formalmente proibido de contato com servidores e estruturas administrativas?
A Justiça observa.
Pressão, intimidação e roteiro combinado
As mensagens divulgadas mostram roteiro, horário marcado e orientação explícita para pressionar vereadores. Não se trata de manifestação espontânea. Trata-se de mobilização coordenada.
Aliados do Republicanos, figuras partidárias ligadas ao núcleo nacional da legenda e apoiadores históricos do prefeito afastado estão ampliando o alcance do movimento. Episódios recentes, como tentativas de constranger entrevistas e tumultuar ambientes na Câmara, indicam que a estratégia não é apenas política — é também simbólica, buscando criar ambiente de intimidação.
Mas essa estratégia pode sair pela culatra.
O risco real: prisão preventiva
Rodrigo Manga já é réu em processo federal. A denúncia envolve desvio de recursos da saúde, peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O Ministério Público Federal descreve o prefeito afastado como líder do núcleo político do esquema.
Quando há indícios de interferência na instrução processual, pressão sobre testemunhas ou utilização indireta da estrutura pública, a Justiça pode entender que existem fundamentos para prisão preventiva — especialmente para garantir a ordem pública e assegurar a instrução criminal.
Fontes jurídicas ouvidas pela reportagem afirmam que, caso fique caracterizada interferência ou descumprimento das cautelares impostas pelo TRF-3, o cenário pode evoluir rapidamente.
Não seria a primeira vez que uma prisão cautelar é decretada diante de tentativa de obstrução.
E, nos bastidores, já se fala que, mantida essa escalada, o caso pode ganhar um novo desdobramento antes mesmo do Carnaval.
A cidade em segundo plano
Enquanto aliados organizam caravanas políticas, Sorocaba enfrenta rombo estimado em cerca de R$ 700 milhões, problemas na saúde, falta de medicamentos e instabilidade administrativa.
A prioridade deveria ser a cidade.
Mas o que se vê é mobilização para salvar um projeto de poder.
Um alerta ignorado
Há meses, muitos alertam para o risco da estratégia adotada pelo entorno do prefeito afastado. A política feita na base do confronto institucional e da tentativa de transformar processo judicial em disputa ideológica é perigosa.
Rodrigo Manga não enfrenta adversários políticos neste momento. Ele enfrenta a Justiça Federal.
E insistir em tensionar decisões judiciais pode custar muito mais do que um mandato.
Pode custar a liberdade.
Sorocaba precisa decidir se quer instituições funcionando ou militância pressionando vereadores para blindar um réu de corrupção.
A resposta começará a ser dada na Câmara. E poderá ecoar nos tribunais.



