Em tempos de polarização, o eleitor aprendeu a identificar rapidamente quem veste uma bandeira — mas nem sempre quem a sustenta. Em Sorocaba, um caso recente expõe justamente essa contradição: o de um político que se apresenta como bolsonarista, mas mantém relações e práticas que caminham em direção oposta ao que seus eleitores esperam.
A proximidade com Paulinho da Força levanta questionamentos inevitáveis. Paulinho, que já foi aliado de Luiz Inácio Lula da Silva, protagonizou mudanças na chamada lei de anistia que frustraram muitos brasileiros. Em vez de viabilizar a libertação de presos ligados aos atos de Atos de 8 de janeiro de 2023, a alteração resultou apenas em redução de penas — um movimento visto por críticos como uma solução “meio-termo” que não resolve a raiz do problema.
Para parte da população, especialmente a mais alinhada ao bolsonarismo, isso foi interpretado como uma traição. Afinal, o discurso defendia liberdade para aqueles considerados “presos políticos”, incluindo idosos e manifestantes que alegavam estar exercendo sua fé e sua opinião. Na prática, o que se viu foi uma negociação política tradicional — distante do discurso de ruptura com o sistema.
O cenário se torna ainda mais simbólico quando esse mesmo grupo aparece publicamente ao lado do prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga. Em vídeo, a relação de amizade é celebrada com entusiasmo, reforçando uma aliança que, para muitos, parece contraditória com o discurso de combate à velha política.
O retorno de Manga ao cargo, após decisão do ministro Nunes Marques, marcou também um movimento rápido e estratégico: exonerações e nomeações em cargos-chave da prefeitura já no primeiro dia. Uma prática comum na política brasileira, mas que contrasta com promessas de gestão técnica e menos aparelhamento.
Outro ponto que chama atenção é a justificativa para permanecer no cargo. O prefeito afirmou que só deixaria a posição caso vereadores firmassem um pacto formal de compromisso com a cidade. Como isso não ocorreu — segundo ele, por falta de “competência” dos parlamentares — decidiu continuar. A narrativa transfere a responsabilidade e reforça uma imagem de liderança solitária, mas também levanta dúvidas: trata-se de compromisso com a cidade ou de controle político?
No fim, o episódio expõe algo maior do que alianças pontuais. Mostra como rótulos ideológicos podem ser usados como ferramenta eleitoral, enquanto decisões concretas seguem a lógica tradicional da política brasileira: acordos, conveniências e manutenção de poder.
Para o eleitor, fica o desafio: separar discurso de prática. Porque, no fim, não é a bandeira levantada que define um político — são as alianças que ele escolhe e as decisões que ele toma.



