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Do Tiktok a Câmara: 4 milhões de seguidores, 52 mil votos em Sorocaba a bolha do Tiktok não encontrou a urna

Existe uma velha confusão na política moderna: achar que quem tem milhões de seguidores automaticamente tem milhões de eleitores.

Em Sorocaba, essa teoria ganhou um laboratório bastante interessante com Rodrigo Manga.

Rodrigo Manga construiu uma gigantesca máquina de comunicação digital. São mais de 4 milhões de seguidores, vídeos que alcançam milhões de visualizações e uma estratégia de comunicação baseada em humor, exageros, personagens e situações que transformaram o prefeito em uma espécie de celebridade das redes sociais.

Manga descobriu algo importante: o usuário de Tiktok gosta de Manga. Apenas isso!

O problema é que a urna eletrônica não tem botão de “seguir e curtir”.

E foi justamente aí que a matemática da internet encontrou a matemática eleitoral.

Nos bastidores, havia expectativa de que a enorme audiência digital do prefeito pudesse funcionar como uma verdadeira máquina de transferência de votos para seus aliados, até João Donizete, sendo vereador, adotou o nome de “João Manga”. A primeira-dama, Sirlange Manga, chegou a ser projetada por alguns interlocutores políticos em patamares mínimos de 250 mil votos.

A realidade foi bem menos cinematográfica que os vídeos de Manga, a esquete não foi bem combinada.

Sirlange foi eleita deputada federal pelo União Brasil, mas terminou com cerca de 78 mil votos no total, segundo a apuração eleitoral considerada neste texto. Em Sorocaba, foram 52.734 votos.

Ou seja: a celebridade digital conseguiu eleger a esposa, mas ficou muito distante da suposta avalanche eleitoral que sua audiência faria imaginar.

E aqui está a parte mais interessante.

4 milhões de seguidores contra 119 mil

Vitor Lippi possui uma presença digital muito menor, na casa de 119 mil seguidores. Não precisou transformar cada vídeo em esquete, não depende de personagem, dancinha ou situação absurda para conseguir atenção.

Ainda assim, terminou a eleição com 88.462 votos, superando a votação total de Sirlange. Não entrou por conta da posição que esteve no partido que escolheu, mas na quantidade de votos, mostrou que não é necessário a “ridicularização da política para se eleger”.

É difícil encontrar uma demonstração mais didática de que seguidor não é sinônimo de eleitor.

Se fosse assim, bastaria abrir o Instagram, somar seguidores e entregar os diplomas da Câmara.

O eleitorado, felizmente, ainda não funciona dessa maneira.

Lippi mostrou que uma audiência menor, mas politicamente mais conectada com uma trajetória e uma identidade eleitoral, pode produzir mais votos do que uma audiência gigantesca construída principalmente em torno do entretenimento.

Eu tentei avisar

E essa não é uma conclusão que surgiu depois da eleição.

Nos bastidores, eu mesmo tentei alertar Manga inúmeras vezes sobre esse problema.

A questão nunca foi negar a força da comunicação digital. Pelo contrário: sempre foi evidente que ele havia construído algo extremamente poderoso nas redes.

O alerta era outro:

o conteúdo estava gerando view, curtida e seguidor, mas não necessariamente estava gerando conversão eleitoral.

Era uma audiência gigantesca, mas predominantemente consumidora de entretenimento político — e não necessariamente uma audiência mobilizada politicamente.

O problema de confundir essas duas coisas é que os números das redes sociais criam uma sensação de força eleitoral que pode não existir na mesma proporção.

E a eleição mostrou isso.

O contraste com quem transformou audiência em voto

Basta observar outros fenômenos recentes da política digital.

Nomes como Eduarda Campobiano, Lucas Pavanato, Chiquini e outros políticos que construíram suas audiências discutindo política de maneira muito mais direta conseguiram transformar presença digital em mobilização eleitoral de uma maneira completamente diferente.

Eles não estavam apenas fazendo o eleitor rir.

Estavam formando opinião, criando identificação política e, principalmente, convencendo pessoas.

Pavanato, por exemplo, construiu uma audiência gigantesca discutindo abertamente temas políticos, confrontando adversários e participando dos grandes debates ideológicos que movimentam a direita e a esquerda.

É uma diferença fundamental.

Uma pessoa pode assistir a um vídeo de Manga, compartilhar, rir e seguir para o próximo.

Já quando alguém acompanha diariamente um político discutindo segurança pública, economia, STF, ideologia, costumes, liberdade, impostos ou os rumos do país, existe uma possibilidade muito maior de formação de identidade política.

É essa identidade que vai para a urna.

O eleitor não vota em quem simplesmente o fez rir durante 30 segundos.

Ele vota, em grande parte, em quem conseguiu convencê-lo de que representa aquilo que ele pensa.

O fenômeno Manga

Manga foi extremamente competente em uma coisa: entender a lógica das redes sociais.

Ele percebeu que um vídeo engraçado viraliza mais do que uma explicação de 15 minutos sobre política fiscal. Que uma provocação gera mais comentários do que uma discussão sobre reforma tributária. Que um personagem exagerado pode alcançar milhões de pessoas enquanto um debate sobre segurança pública pode ser ignorado pelo algoritmo.

Isso é comunicação digital eficiente.

Mas existe uma diferença entre ser um fenômeno de audiência e ser uma liderança capaz de mobilizar eleitoralmente essa audiência.

Manga tornou-se conhecido nacionalmente justamente por esse modelo. Porém, quando o assunto saiu do entretenimento e entrou em temas políticos mais complexos — STF, 8 de Janeiro, polarização entre direita e esquerda, economia, segurança pública e os grandes debates nacionais — sua atuação não produziu necessariamente a mesma força de mobilização.

É como ter um estádio lotado e descobrir, no dia do jogo, que boa parte da torcida estava ali porque o mascote era engraçado.

O problema da bolha

A grande lição eleitoral de Manga talvez seja justamente essa.

A internet pode criar a sensação de que uma pessoa é muito maior politicamente do que ela realmente é.

Visualizações impressionam.

Curtidas impressionam.

Seguidores impressionam.

Mas existe uma pergunta que nenhuma plataforma consegue responder:

“Quantas dessas pessoas realmente vão sair de casa e votar no candidato que você pediu?”

É aí que a bolha estoura.

Uma pessoa pode assistir a dez vídeos de Manga durante a semana, compartilhar dois, mandar três para os amigos, rir de outros quatro e continuar votando em outro candidato.

Porque consumir conteúdo não é necessariamente aderir politicamente.

E muito menos transferir voto.

A máquina digital não virou máquina de votos

Manga conseguiu eleger sua esposa. Isso precisa ser reconhecido.

Mas se a régua utilizada era a expectativa de uma votação extraordinária, capaz de transformar os mais de 4 milhões de seguidores em uma gigantesca transferência eleitoral para Sirlange, Claudio Sorocaba, João Donizete e outros aliados, o resultado foi muito mais modesto.

A própria votação de Sirlange em Sorocaba — 52.734 votos — mostra que existe uma distância considerável entre o tamanho da audiência digital do prefeito e sua capacidade de converter essa audiência em votos para terceiros.

E talvez essa seja a maior ironia de toda essa história.

Manga é um fenômeno das redes sociais. Mas as urnas ainda não parecem ter recebido o memorando.

No Instagram, ele pode ter milhões.

Na política, entretanto, milhões de seguidores não significam milhões de votos.

No fim das contas, o algoritmo entrega visualização.

A rede social entrega alcance.

O meme entrega compartilhamento.

Mas quem entrega voto é o eleitor.

E o eleitor, ao contrário do algoritmo, não é obrigado a seguir ninguém.

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