Ex-integrante do Movimento Brasil Livre critica a trajetória de Renan Santos e acusa o grupo de contribuir para a fragmentação da direita brasileira
Há uma diferença importante entre disputar espaço político e transformar a própria direita em campo permanente de batalha. É justamente nesse ponto que está uma das principais críticas dirigidas a Renan Santos e ao Movimento Brasil Livre (MBL), especialmente diante da criação do Partido Missão e da atual disputa eleitoral.
Eu fiz parte do MBL.
Estive no movimento em um dos momentos mais importantes da política brasileira recente: as mobilizações que culminaram no impeachment de Dilma Rousseff. Naquele período, o discurso era claro: combater o establishment político, defender liberdade, responsabilidade e mudanças profundas no país.
Mas minha trajetória dentro do movimento terminou quando surgiu uma divergência que considero fundamental.
Com o crescimento político de Jair Bolsonaro, passei a perceber uma postura de confronto cada vez mais explícita do MBL contra apoiadores do então candidato. Segundo minha experiência à época, houve orientação em grupos internos de coordenadores para retirar apoiadores de Bolsonaro dos espaços do movimento.
Foi o momento em que decidi sair.
A questão, para mim, era simples: um movimento que carrega “Brasil Livre” no nome não deveria determinar previamente quem seus integrantes poderiam apoiar eleitoralmente.
A liberdade, quando é verdadeira, precisa valer inclusive para quem pensa diferente.
Da derrubada de Dilma à divisão da direita
O paradoxo político que observo hoje é justamente esse.
O MBL nasceu com forte atuação contra o governo do PT e teve participação relevante nas mobilizações pelo impeachment de Dilma. Entretanto, ao longo dos anos, o movimento passou a concentrar parte significativa de sua atuação política no enfrentamento a Bolsonaro e ao bolsonarismo.
Isso não é apenas uma divergência de estratégia.
Na minha avaliação, essa escolha ajudou a aprofundar uma divisão dentro do campo da direita brasileira justamente quando o país enfrenta uma disputa política extremamente polarizada.
E é nesse contexto que surge o Missão, partido ligado ao grupo político de Renan Santos.
A pergunta que precisa ser feita é: qual é o objetivo final dessa estratégia?
Se o objetivo declarado é transformar o Brasil, a fragmentação permanente da oposição ao PT precisa ser discutida.
O Brasil enfrenta problemas reais. A disputa política não pode ignorá-los
O cenário brasileiro exige discussões sobre segurança jurídica, economia, déficit público, carga tributária, segurança pública, liberdade de expressão, eficiência do Estado e ambiente de negócios.
São problemas concretos que atingem diretamente a população.
Por isso, quando ocorre uma crise envolvendo um debate presidencial ou outro importante episódio institucional, espera-se que os candidatos apresentem propostas e discutam as consequências desses acontecimentos para o país.
É justamente nesse ponto que a postura de Renan Santos provoca críticas.
Em vez de concentrar sua comunicação exclusivamente nos problemas do governo Lula e do PT, Renan frequentemente direciona ataques também — e muitas vezes de maneira bastante contundente — a Bolsonaro e ao campo bolsonarista.
Isso produz uma consequência política evidente: a oposição passa a gastar energia significativa disputando espaço dentro da própria oposição.
E quem ganha espaço quando os adversários estão ocupados brigando entre si?
Essa é uma pergunta que o eleitor precisa responder.
O episódio do debate e a escolha do alvo
Em meio à crise envolvendo o debate presidencial, Renan Santos voltou suas críticas para Flávio Bolsonaro e para o campo bolsonarista.
Mas Flávio Bolsonaro não ocupa a Presidência da República.
O governo federal é comandado por Luiz Inácio Lula da Silva.
Por isso, a crítica central não deveria ser simplesmente “Renan deveria falar de Lula”. O ponto mais amplo é outro: qual é a prioridade política de um candidato que pretende disputar a Presidência?
O eleitor pode legitimamente questionar se faz sentido dedicar parcela tão significativa da campanha ao combate contra outro segmento da direita enquanto o país continua enfrentando problemas econômicos, fiscais e institucionais.
Um partido novo precisa explicar qual é o seu projeto de país
O Missão tenta se apresentar como uma alternativa dentro da direita brasileira.
Isso é legítimo.
Novos partidos fazem parte da democracia. Novos candidatos também.
O problema começa quando a disputa interna passa a ser maior do que a discussão sobre o próprio país.
Não basta dizer que é contra Bolsonaro.
Não basta dizer que é diferente do bolsonarismo.
Não basta construir uma identidade política baseada na rejeição de outro grupo.
O eleitor precisa saber o que o candidato pretende fazer quando chegar ao poder.
Como pretende administrar as contas públicas?
Como pretende lidar com segurança pública?
Qual será sua política econômica?
Como pretende reduzir burocracia?
Como pretende enfrentar o crime organizado?
Qual será sua posição diante do Judiciário?
Como pretende preservar liberdade de expressão sem romper os limites constitucionais?
Como pretende melhorar a educação?
Como pretende gerar empregos?
Essas são perguntas de governo.
A declaração sobre o futuro governo
Outro episódio que merece ser analisado é uma declaração atribuída a Renan Santos sobre o que deveria acontecer caso ele perdesse a eleição.
A fala foi interpretada por críticos como uma defesa de que o próximo governo enfrentasse uma situação de crise.
Se essa interpretação estiver correta, trata-se de uma questão politicamente relevante.
Porque existe uma diferença enorme entre torcer pela derrota de um adversário e desejar que o país atravesse uma crise para que determinado projeto político possa posteriormente se beneficiar dela.
O Brasil não pode ser laboratório de projeto eleitoral.
Governos ruins prejudicam pessoas reais.
Aumento de inflação afeta famílias.
Desemprego afeta trabalhadores.
Déficit público afeta juros e investimentos.
Crises institucionais afetam empresas e cidadãos.
Uma pessoa que pretende ocupar a Presidência precisa explicar com clareza qual é sua relação com esses problemas e quais são suas prioridades.
A crítica não é ao direito de existir. É ao projeto político
O ponto não é defender que Renan Santos não possa disputar eleições.
Ele pode.
O ponto é questionar politicamente o projeto que está sendo apresentado.
O Brasil já conhece o custo da fragmentação política.
Já conhece o custo de partidos que colocam seus interesses acima dos interesses nacionais.
E já conhece o resultado de uma política em que adversários passam mais tempo destruindo uns aos outros do que apresentando soluções.
O MBL que um dia ajudou a colocar milhões de brasileiros nas ruas contra o governo Dilma hoje está diante de uma realidade completamente diferente.
E a pergunta que fica é incômoda:
o movimento que dizia lutar por um Brasil Livre está construindo uma alternativa nacional ou ajudando a fragmentar ainda mais o campo que pretende disputar?
Para quem, como eu, esteve dentro do movimento, essa não é uma pergunta abstrata.
É uma questão de trajetória.
Eu saí porque entendi que não fazia sentido participar de um movimento que, na minha visão, começava a confundir liberdade política com alinhamento obrigatório.
Hoje, olhando para o nascimento do Missão e para a atuação de Renan Santos, continuo enxergando o mesmo problema sob uma nova embalagem.
O Brasil não precisa apenas de novos partidos.
Precisa de projetos capazes de enfrentar os problemas reais do país.
E, principalmente, precisa de políticos que entendam uma coisa básica:
o adversário político pode estar do outro lado da mesa. Mas o Brasil está acima da mesa.



