O cenário político de Sorocaba assistiu, nesta segunda-feira (13), a mais um capítulo da estratégia de comunicação do prefeito Rodrigo Manga (Republicanos). Conhecido por sua onipresença nas redes sociais, o prefeito “tiktoker” elevou o tom do espetáculo ao caminhar 27 km até Mairinque e, em um gesto de simbolismo duvidoso, arremessar fezes de vaca sobre a própria cabeça.
Embora o prefeito tente emoldurar a cena como um “exercício de humildade” e “soberania divina”, o contraste entre a performance de “servo humilde” e a realidade dos processos que correm nos tribunais sugere algo mais calculado: uma cortina de fumaça fétida para mascarar investigações de corrupção.
A Fé como Escudo Político
Ao afirmar que “somos piores que bosta de vaca” e recorrer ao discurso religioso, Manga utiliza uma tática clássica do populismo digital. O objetivo é claro: criar uma conexão emocional com sua base eleitoral, desviando o foco do escrutínio racional para o campo da fé. No entanto, a humildade pregada diante das câmeras esbarra na arrogância do silêncio sobre temas espinhosos:
- O Dinheiro sob o Teto: As investigações que culminaram na apreensão de milhões de reais em endereços ligados a familiares e amigos próximos permanecem sem uma explicação convincente por parte do chefe do Executivo.
- Lavagem de Dinheiro: As suspeitas que recaem sobre a agência da primeira-dama e a suposta compra de cavalos com recursos de propina formam um quadro que a “humildade” de um banho de esterco não é capaz de limpar.
- O Cargo por Liminar: Afastado por cinco meses e mantido no posto por uma decisão liminar do STF, Manga governa sob uma fragilidade jurídica que ele tenta compensar com força mediática.
De Político a Personagem
A crítica que surge não é ao exercício da fé individual, mas à instrumentalização do sagrado para fins de sobrevivência política. O “personagem” Manga parece absorver as funções do “prefeito” Manga. Enquanto as redes sociais recebem conteúdo de alto impacto visual, as instituições aguardam respostas sobre o esquema de lavagem de dinheiro e a origem da fortuna apreendida em sua órbita familiar.
“A tentativa de transformar a política em um reality show gospel serve para blindar o político de questionamentos técnicos. Quando o debate deveria ser sobre processos judiciais e probidade administrativa, ele é empurrado para o campo da espiritualidade.”
Projeto de Poder e Foro Privilegiado
A movimentação para eleger a esposa não surge, aos olhos dos críticos, como uma proposta de renovação ou projeto administrativo, mas como uma manobra de autodefesa. A busca pelo foro privilegiado parece ser a peça final do tabuleiro para evitar que as investigações de lavagem de dinheiro avancem para instâncias onde o “teatro das redes sociais” não possui influência.
No fim, o banho de fezes em Mairinque pode até gerar engajamento e visualizações, mas não possui o poder de lavar as manchas de uma gestão marcada por batidas policiais e segredos de justiça. Sorocaba merece mais do que um personagem em busca de cliques; merece um político que responda às perguntas que o povo, e a justiça, ainda fazem.



