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Como Rodrigo Manga vendeu a saúde de Sorocaba — e por que muita gente ainda acredita que ele é inocente

Esta matéria é baseada exclusivamente nos documentos que compõem a Denúncia Criminal protocolada pelo Ministério Público Federal no Tribunal Regional Federal da 3ª Região em 27 de janeiro de 2026 (Processo nº 5003690-61.2022.4.03.6110), subscrita pela Procuradora da República Cristina Marelim Vianna, e nas peças investigatórias da Polícia Federal relativas à Operação Copia e Cola, deflagrada em 10 de abril de 2025. Todos os fatos narrados possuem referência documental identificável nos autos. Nenhuma afirmação é inferência ou especulação do autor.

Rodrigo Maganhato, o Prefeito Manga de Sorocaba, foi formalmente denunciado pelo Ministério Público Federal em 27 de janeiro de 2026, acusado de liderar uma organização criminosa que desviou dinheiro público destinado à saúde, recebeu propinas antes mesmo de tomar posse, fraudou licitações, praticou peculato em 33 ocasiões e lavou o produto de tudo isso através da empresa da esposa, da conta de um cunhado-bispo e da casa de um amigo empresário. O processo corre no Tribunal Regional Federal da 3ª Região. A Polícia Federal encontrou quase R$1,8 milhão em dinheiro vivo nas casas de seus operadores. O TCE/SP já havia declarado que a emergência que justificou o primeiro contrato suspeito foi “fabricada”.

E ainda assim, uma parcela significativa da população de Sorocaba acredita que ele é vítima. Ou que foi inocentado. Ou que “a polícia vasculhou tudo e não achou nada”. Por quê?

A estratégia do silêncio e do ruído

A resposta tem várias camadas. A primeira e mais eficaz é o sigilo do processo. O Processo nº 5003690-61.2022.4.03.6110 tramita em segredo de justiça (nível 1) no TRF 3ª Região. Isso significa que os autos não são acessíveis ao público geral. Quem não tem advogado constituído nos autos não lê o processo. E quem não lê o processo consome apenas o que o prefeito e seus aliados comunicam publicamente — que é, invariavelmente, a versão do vitimismo.

A segunda camada é a confusão deliberada entre etapas processuais. No Brasil, uma denúncia criminal é apenas o começo de um processo — não é condenação. O denunciado mantém todos os seus direitos, incluindo o de permanecer no cargo até decisão judicial definitiva (ou até o processo político de cassação na Câmara). Quando apoiadores do prefeito dizem que “ele ainda não foi condenado”, estão dizendo a verdade — mas omitindo que ele foi formalmente acusado com base em um conjunto probatório que a Procuradoria da República considera suficiente para julgamento. São coisas diferentes.

A terceira camada é a narrativa ativa de perseguição política. Manga e seus aliados repetem a tese de que a investigação é motivada por inimigos políticos, que a Polícia Federal “revirou sua vida” por meses e “não encontrou nada”. Esta afirmação é factualmente falsa — e este texto existe para demonstrar isso, com datas, valores, nomes de arquivos periciais e referências precisas aos autos.

“Esta denúncia versará apenas sobre os fatos delitivos relativos à celebração do Contrato Emergencial nº 249/2021 e ao Chamamento Público n° 2/2021. Os fatos relativos a outros contratos serão tratados em peças acusatórias futuras.”

MPF — Esclarecimento Preliminar da Denúncia — Proc. 5003690-61.2022.4.03.6110

Leia a parte final dessa citação com atenção. O MPF informa que esta denúncia — já extensa, já grave — é apenas uma parte do que foi apurado. Outros contratos, outros investigados, outras condutas criminosas identificadas na mesma gestão serão objeto de denúncias futuras, em inquéritos autônomos já abertos. A denúncia de janeiro de 2026 não é o fim da investigação. É o começo do processo penal.

PARTE II

A ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA QUE ANTECEDEU O MANDATO

A ACENI: Uma máquina nacional de saquear o SUS

Para entender o caso Manga, é preciso primeiro entender quem são os seus parceiros. A ACENI — Instituto de Atenção à Saúde e Educação, originalmente denominada Associação das Crianças Excepcionais de Nova Iguaçu — é uma organização social sediada no Rio de Janeiro que, ao longo dos anos 2010 e 2020, expandiu sua atuação para dezenas de municípios brasileiros sob o modelo de gestão de unidades de saúde pública.

A investigação da Controladoria-Geral da União (CGU), compartilhada com a Polícia Federal de Sorocaba, revelou algo assombroso: a ACENI não era uma entidade isolada. Ela integrava uma rede de organizações sociais — incluindo IEV, IAPP, ABBC, Instituto Morgan, OSSPUB e outras — controladas pelo mesmo grupo de pessoas, com dirigentes cruzados, funcionários compartilhados e empresas de fachada contratadas por todas elas de forma circular. O total dos contratos investigados por essa rede com o poder público chegava a R$1.107.414.922,81 — mais de um bilhão de reais —, dos quais ao menos R$351.426.148,75 eram de origem federal.

O modus operandi era sempre o mesmo, identificado pela CGU em múltiplos municípios: vencer licitações de saúde, subcontratar empresas ligadas aos próprios dirigentes por serviços superfaturados ou inexistentes, e usar o resultado do desvio para pagar propinas aos agentes públicos que viabilizaram os contratos. O esquema tinha precedentes: o prefeito do Guarujá foi afastado pela Operação Nácar (PF) pelos mesmos motivos. O prefeito de Canoas/RS foi afastado pela Operação Copa Livre (GAECO/RS). Sorocaba era a próxima cidade da lista.

Paulo Korek e Anderson: os corretores da propina

Os operadores centrais do esquema em Sorocaba eram dois sócios: Paulo Sirqueira Korek Farias — genro do conselheiro da ACENI, sócio da AP Engenharia Clínica Ltda. — e Anderson Luiz Santana, seu parceiro e ex-diretor de outra OS investigada. A AP Engenharia seria o instrumento para sugar o dinheiro dos contratos: recebia pagamentos da ACENI a título de prestação de serviços técnicos que nunca foram realizados.

A estratégia eleitoral do grupo foi identificada na investigação do GAECO do Rio Grande do Sul e compartilhada com a Polícia Federal de Sorocaba. Em conversas gravadas em setembro de 2020, Paulo Korek e Anderson discutiam como identificar candidatos favoritos nas pesquisas eleitorais e oferecer-lhes R$300.000,00 de propina em troca do compromisso, após a eleição, de entregar a gestão de unidades de saúde à ACENI. O modelo já havia funcionado em Canoas. O prefeito eleito por lá, Jairo Jorge, havia aceitado o acordo. Depois seria afastado do cargo.

No dia 14 de setembro de 2020 — seis semanas antes do primeiro turno das eleições municipais — Paulo Korek e Anderson trocaram mensagens discutindo os candidatos a abordar. O candidato de Sorocaba já havia “estado com eles”. A reunião seguinte estava agendada para a segunda-feira.

23 DE SETEMBRO DE 2020 — 22H15 — ÁUDIO DE WHATSAPP

“E uma outra coisa, vamos decidir amanhã as cidades em que a gente vai, porque que eu estou te falando isso, o João marcou pra segunda-feira no PrB, com o cara de Sorocaba, o cara de Sorocaba vai ganhar, é aquele cara que já esteve com a gente, tudo mundo já me falou desse cara aí, e o cara tá no PrB, o cara vai ganhar a eleição. O João já marcou no partido, inclusive, pra tentar fazer até uma situação melhor pra nós. Marcou pra segunda-feira. E ele tem outras cidades pra nos apresentar. Então eu queria saber de fato até onde a gente vai, entendeu? Pra mim saber o que eu faço, filhão. Porque o momento é o da gente dá uma baaaita de uma alavancada aí, e é agora, entendeu? Nós temos condições de pegar no mínimo mais umas sete ou oito cidades.”

Paulo Korek Farias → Anderson Santana — ID 268896624 — fl. 63/64 — IPL 5003690-61.2022.4.03.6110

“O cara de Sorocaba” era Rodrigo Maganhato. “João” era João Sirqueira Farias, irmão de Paulo Korek e à época membro do Partido Republicanos (PRB) de Sorocaba. A reunião mencionada no áudio efetivamente aconteceu.

28 de setembro de 2020: a reunião no PRB

No dia 28 de setembro de 2020 — exatamente cinco dias após o áudio —, realizou-se reunião na sede do Partido Republicanos de Sorocaba. Estavam presentes o candidato Rodrigo Maganhato, Paulo Korek Farias e Anderson Luiz Santana. A investigação identificou a reunião por meio dos dados telemáticos e da análise de conteúdo extraída dos dispositivos eletrônicos apreendidos.

Dois dias depois, em 30 de setembro de 2020, Fausto Bossolo — que viria a ser nomeado Secretário de Administração de Sorocaba por Rodrigo Maganhato — foi pessoalmente até a casa de Paulo Korek. A mensagem enviada por Fausto ao contato explica o motivo da visita: “Essa semana vcs se encontraram e ele me pediu para dar um toque no amigo.” O “ele” era Manga. O “amigo” era Paulo Korek. A pronta resposta de Korek — fornecendo o número do setor e do lote da sua casa — demonstra que ele já esperava o emissário.

A única finalidade que a investigação consegue vislumbrar para esse encontro, dois dias após a reunião no PRB, era concretizar o que havia sido combinado: o pagamento da propina de R$300.000,00 para garantir que, eleito, Manga entregaria os contratos de saúde à ACENI.

29 de novembro de 2020: “Levamos Sorocaba”

No dia 29 de novembro de 2020, um domingo, Paulo Korek enviou uma mensagem que a investigação considera uma das mais reveladoras dos autos:

“Graças a Deus levamos Canoas e levamos Sorocaba.”

Paulo Korek Farias — 29/11/2020 — após o resultado do segundo turno

A palavra “levamos” é carregada. Não diz “vencemos” ou “nosso candidato ganhou”. Diz “levamos” — como quem toma posse de algo que foi negociado, comprado, garantido. Sorocaba havia sido adquirida. O pagamento da propina estava encaminhado. E, como em Canoas, o grupo esperava receber em contratos o que havia investido em propina.

O prefeito de Canoas, Jairo Jorge, foi afastado do cargo por esses fatos. O mesmo esquema. A mesma ACENI. O mesmo Paulo Korek. Sorocaba era a cópia.

PARTE III

A MÁQUINA SE ATIVA: DO DIA DA POSSE AO PRIMEIRO CONTRATO

1º de janeiro de 2021: a organização criminosa entra em operação

Rodrigo Maganhato tomou posse como Prefeito de Sorocaba em 1º de janeiro de 2021. Sua equipe foi montada com cuidado. Para Secretário de Administração, nomeou Fausto Bossolo — o mesmo que havia visitado Paulo Korek dias após a eleição. Para Secretário de Saúde, Vinícius Tadeu Sattin Rodrigues — que assinaria os documentos técnicos necessários para viabilizar as contratações. Ambos eram peças da engrenagem.

Já no dia 27 de janeiro de 2021 — menos de quatro semanas após a posse — Marco Silva Mott, empresário de estacionamentos e amigo pessoal do prefeito, enviou mensagem a Fausto Bossolo tratando do “nosso assunto” e referindo-se ao futuro secretário de saúde, Dr. Vinícius. A razão da “amolação” de Marco, segundo ele mesmo escreveu, é que o negócio “será um super negócio para todos”. Marco Mott não tinha cargo público. Não tinha contrato com a prefeitura. Não havia motivo legítimo para ele pressionar o Secretário de Administração sobre assuntos da saúde — a não ser que fosse um dos operadores financeiros do esquema.

Março de 2021: Paulo Korek vai ao gabinete de Fausto — sem ter nenhum contrato

Em 12 de março de 2021, às 15h57, Paulo Korek Farias ligou para Fausto Bossolo pelo aplicativo de áudio, dizendo: “Oi Fausto, boa tarde, como você está, meu irmão, na paz? Sim, Fausto, to chegando tá?” Um minuto depois, outro áudio: “Perfeito, Fausto, show, acabei pegando um pouquinho de trânsito, ta dando aqui que vou chegar dez minutinhos, tá? Atrasado, tá? Mas uma e dez estou no seu gabinete, tá bom? Obrigado.”

Paulo Korek foi ao gabinete do Secretário de Administração de Sorocaba para uma reunião pessoal. Naquela data — março de 2021 — a ACENI não tinha nenhum contrato com a Prefeitura de Sorocaba. Não havia razão administrativa, técnica ou burocrática para esse encontro. Havia apenas o acordo pré-eleitoral a ser executado.

A emergência fabricada: seis meses de inércia deliberada

Desde o dia da posse, em 1º de janeiro de 2021, o prefeito Rodrigo Maganhato e o Secretário de Saúde Vinícius Rodrigues sabiam de uma informação crucial: o convênio que o gestor anterior da UPA do Éden — o Banco de Olhos de Sorocaba (BOS) — mantinha com a prefeitura venceria em 15 de julho de 2021. Tinham seis meses para abrir uma licitação regular e contratar um novo gestor.

Não fizeram nada. Durante seis meses, nenhum processo licitatório foi iniciado. Nenhum chamamento público. Nenhuma providência para garantir continuidade do serviço. O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE/SP), ao examinar o caso, foi cirúrgico em sua conclusão, registrada em acórdão:

“EMERGÊNCIA FABRICADA. NÃO COMPROVADA A ECONOMICIDADE. PROCEDÊNCIA. IRREGULARIDADE. (…) Forçoso concluir que a dita situação emergencial decorreu diretamente da ineficiência do órgão em promover o chamamento público em tempo hábil (emergência fabricada). Foi a falta de planejamento e a inércia do Poder Público que ocasionou o risco de paralisação dos serviços, resultando na necessidade de contratação emergencial.”

Acórdão TCE/SP — TC’s n. 022892.989.21-1 e 012158.989.22-8 — IPL 5003690-61.2022.4.03.6110

O TCE/SP não usou eufemismos. Disse “emergência fabricada”. Disse que foi “inércia do Poder Público”. Constatou sobrepreço de 40,64% em relação ao gestor anterior. Identificou que nem mesmo a justificativa técnica para a escolha da ACENI foi apresentada. E concluiu pela irregularidade do contrato.

12 de julho de 2021: o prefeito pressiona — e o Secretário corre

Em 12 de julho de 2021, três dias antes do vencimento do contrato do BOS, Fausto Bossolo enviou uma mensagem ao Secretário de Saúde Vinícius Rodrigues que a investigação considera uma das provas mais contundentes do envolvimento direto do prefeito:

“Correr amanhã para publicar e já deixar assinado porque O Manga já me esculhambou hoje, pois eu havia falado que ele assinaria hoje.”

Fausto Bossolo → Vinícius Rodrigues — 12/07/2021 — ID 335166328 — fl. 90 — Autos 5022915-59.2025.4.03.0000

“O Manga agora quer saber se eles já têm médicos para entrar lá no dia 15.”

Continuação da mesma mensagem — fl. 90

Há dois elementos devastadores nessas duas frases. Primeiro: o prefeito estava tão envolvido na operacionalização da contratação que “esculhambou” o seu próprio Secretário de Administração por atraso de um dia na assinatura. Não é o comportamento de alguém que desconhece ou está alheio ao processo. É o comportamento de quem está no comando e cobra resultado. Segundo: “O Manga agora quer saber se eles já têm médicos.” “Eles” — que ainda não eram o gestor contratado — eram a ACENI. O prefeito já tratava a ACENI como o novo gestor antes da assinatura formal do contrato.

14 de julho de 2021: o contrato é assinado — preço 40,64% acima do anterior

No dia 14 de julho de 2021, um dia antes do vencimento do contrato do BOS, a Prefeitura de Sorocaba assinou o Contrato de Gestão Emergencial CPL nº 249/2021 com a ACENI-IASE. O contrato previa o pagamento de R$16.520.207,92 para gestão da UPA do Éden pelo período de 90 dias (prorrogável até 180 dias). Dois dos empenhos somavam R$1.050.000,00 provenientes de verbas federais.

O valor era 40,64% superior ao que o BOS recebia pelo mesmo serviço. Nenhuma justificativa técnica foi apresentada para o sobrepreço. A “convocação” para outras entidades foi feita por e-mail — o que o TCE/SP declarou não atender ao conceito de convocação pública. Na prática, a ACENI foi escolhida antes do processo começar.

O contrato foi assinado pelo próprio Rodrigo Maganhato.

PARTE IV

O DINHEIRO SOME: AS NOTAS FISCAIS QUE ERAM CÓPIAS

O mecanismo do peculato: dinheiro público → ACENI → AP Engenharia → espécie

Uma vez assinado o contrato, o mecanismo de desvio foi ativado. Funcionava assim: a Prefeitura de Sorocaba transferia recursos públicos para a ACENI-IASE, que os usaria para gerir a UPA do Éden. A ACENI, por sua vez, subcontratava a AP Engenharia Clínica Ltda. — de Paulo Korek — para prestação de serviços técnicos de engenharia clínica, vigilância e outras ações preventivas. A AP Engenharia emitia notas fiscais, recebia o dinheiro, e então o dinheiro era sacado em espécie.

O problema: os serviços nunca foram prestados. A perícia da Polícia Federal concluiu que os relatórios entregues pela AP Engenharia eram cópias de documentos do Ministério da Saúde e de artigos científicos encontrados na internet — texto colado, sem nenhuma adequação à realidade da UPA do Éden. A AP Engenharia não tinha estrutura técnica, pessoal especializado nem capacidade operacional compatível com os valores recebidos. Era uma empresa de fachada.

A prova mais reveladora: os relatórios idênticos

Quando a Prefeitura assinou o Termo de Convênio para a UPH-Zona Oeste em março de 2022, o mesmo esquema foi replicado. E foi aí que a fraude se tornou irretatável: a AP Engenharia entregou para a UPH-Zona Oeste exatamente os mesmos relatórios que havia entregado para a UPA do Éden meses antes. Os documentos dos meses de março, abril e maio de 2022 eram textualmente idênticos entre si — variando apenas a data, o nome da unidade e a assinatura do engenheiro.

A operação foi batizada de “Copia e Cola” exatamente por isso. A fraude não era nem sofisticada: pegavam os relatórios do mês anterior, mudavam a data e a assinatura, e entregavam como se fossem novos. A perícia criminal identificou isso com precisão cirúrgica.

33 crimes de peculato — cada transferência é um crime

O Ministério Público Federal contabilizou 33 transferências bancárias fraudulentas: 24 entre agosto de 2021 e março de 2022 (UPA do Éden) e 9 entre abril e junho de 2022 (UPH-Zona Oeste). Cada uma dessas transferências é imputada como um crime autônomo de peculato-desvio. A lei penal é clara: peculato-desvio é quando o funcionário público — ou quem com ele concorre — desvia dinheiro público em proveito próprio ou de terceiros. O prefeito era o responsável pelos contratos. Assinou os documentos. Cobrou a execução. É o réu principal em todos os 33 crimes.

PARTE V

A LICITAÇÃO QUE JÁ TINHA DONO: A UPH-ZONA OESTE

Após o contrato emergencial da UPA do Éden, a prefeitura precisava abrir uma licitação regular para a gestão da UPH-Zona Oeste. Desta vez, havia a obrigação formal de um processo competitivo. Mas o grupo criminoso já havia decidido quem venceria.

A cobrança da “parceria” — e a revogação imediata

Em 14 de agosto de 2021, a Secretaria de Saúde publicou o Projeto Básico para o chamamento público da UPH-Zona Oeste — sem avisar previamente os representantes da ACENI. Horas depois, Anderson Santana mandou mensagem a Fausto Bossolo:

“Lançaram uma situação aí né e nem comunicaram a gente. Pô, e aquela parceria, pô, cadê?”

Anderson Santana → Fausto Bossolo — 14/08/2021

Anderson não estava pedindo informações sobre um processo público ao qual qualquer cidadão tinha direito. Estava cobrando o cumprimento de um acordo privado — a “parceria” — que havia sido firmado antes da eleição. A publicação sem aviso prévio havia “descumprido” o trato.

Dois dias depois, em 16 de agosto de 2021, o Secretário de Saúde Vinícius Rodrigues revogou o Projeto Básico publicado. O documento foi retirado de circulação e reelaborado. O MPF é direto em sua análise: “Havia um arranjo entre a ACENI e a gestão de RODRIGO MAGANHATO que não havia sido honrado”. A revogação foi a resposta à cobrança.

O jantar de 23 de dezembro de 2021 — montando o edital com os beneficiários

No dia 23 de dezembro de 2021, Fausto Bossolo saiu para jantar. O destino e o cardápio são irrelevantes. O que importa é o que registrou em mensagem: “Estou jantando com Paulinho e Anderson. Por conta do edital.”

O Secretário de Administração de Sorocaba — responsável pela condução do processo de licitação — estava jantando com os representantes da organização que seria a vencedora da licitação, para discutir o texto do edital. É difícil encontrar uma imagem mais literal de fraude licitatória.

A ansiedade do Secretário — “já tava indo cagar aqui”

A tensão do período em que o certame estava em andamento ficou registrada nas mensagens de Fausto Bossolo ao Secretário de Saúde:

“Tô suando frio aqui… porra já tava indo cagar aqui. Vc e o Vinícus vão me matar qualquer hora dessas.”

Fausto Bossolo — durante o processo licitatório da UPH-Zona Oeste

Quem anseia pelo resultado de uma licitação como quem torce por uma partida de futebol não é um servidor público neutro. É alguém com interesse direto no resultado — e comprometimento pessoal com um desfecho específico. A ACENI venceu o certame. Em 7 de março de 2022, o Termo de Convênio foi assinado pelo Prefeito Rodrigo Maganhato. O convênio previa R$2.407.146,57 em verbas federais e foi prorrogado em abril de 2023 com reajuste de 24,71% — sem justificativa técnica para tanto.

PARTE VI

COMO O DINHEIRO CHEGAVA AO PREFEITO: OS TRÊS CANAIS

Canal 1 — Marco Mott e os R$6,5 milhões inexplicáveis

Marco Silva Mott é empresário de estacionamentos em Sorocaba. É amigo pessoal de Rodrigo Maganhato. Segundo a denúncia do MPF, era um dos dois principais operadores financeiros do esquema. Seu papel era receber o dinheiro da propina — entregue em espécie por Fausto Bossolo a partir dos repasses da ACENI — e transformá-lo em recursos aparentemente lícitos que chegassem ao patrimônio do prefeito.

A perícia financeira da Polícia Federal foi aplicada às contas de Marco Mott e suas empresas. O resultado, documentado no Laudo nº 2336/2024-INC/DITEC/PF, é de difícil contestação: entre 1º de janeiro de 2021 e 31 de maio de 2023, foram realizados 258 depósitos em espécie nas contas de Mott e suas empresas, totalizando R$6.520.406,05. A perícia não encontrou origem lícita nesses valores nos negócios conhecidos do empresário.

Nas duas fases da Operação Copia e Cola — em abril e novembro de 2025 — a Polícia Federal encontrou na residência de Marco Mott R$646.350,00 e R$237.141,00 em dinheiro vivo, respectivamente. Total apreendido: R$883.491,00.

O mecanismo de lavagem usado por Mott era o seguinte: ele simulava contratos de publicidade com a empresa da primeira-dama Sirlange Rodrigues Frate Maganhato — a 2M Comunicação e Assessoria — pagando R$8.500,00 mensais por serviços de divulgação para seus estacionamentos. Os serviços eram fictícios ou grosseiramente superfaturados: o próprio Mott, posteriormente, contratou um profissional real pelo mesmo serviço por R$2.500,00. A diferença — e o restante — era dinheiro de propina convertido em receita da empresa da esposa do prefeito.

Canal 2 — O Bispo Josivaldo e a contabilidade do crime

Josivaldo Batista de Souza é casado com Simone Rodrigues Frate — irmã de Sirlange, portanto cunhado do prefeito. É bispo da Igreja Cruzada dos Milagres dos Filhos de Deus. E era, segundo a denúncia, o segundo operador financeiro do esquema.

O celular de Josivaldo, apreendido pela Polícia Federal em abril de 2025, continha no aplicativo de notas um arquivo dividido em “ENTRADAS” e “SAÍDAS” — uma contabilidade paralela cifrada. As anotações referiam-se ao período final de 2024 e início de 2025 (criação em julho de 2024, modificação em abril de 2025). O cruzamento com as demais provas permitiu identificar:

  • “Peralt 150” e “150 pelta” — duas entradas de R$150.000,00 cada, atribuídas a Sérgio Ricardo Peralta, Presidente da ACENI-IASE, referentes a março e fevereiro de 2024
  • “HARAS” — pagamento referente à manutenção de cavalos do prefeito, no valor de R$700,00, compatível com as mensagens sobre os animais identificadas em outros celulares
  • “GIULIA” — referência à filha do prefeito, Giulia Pansarini Maganhato, para quem Josivaldo realizou quatro transferências bancárias de R$1.554,00 cada (confirmadas nos extratos)
  • “SIRL” — abreviação de Sirlange (primeira-dama)
  • “MANU” — referência à secretária pessoal do prefeito, Emanuela Shirley Ferreira Gois
  • “Café c/ Elas” e “Rosangela” — valores de R$3.860,00 e R$15.900,00 referentes a eventos sociais com participação da primeira-dama

O canal de lavagem de Josivaldo era a sua própria igreja: ele transferia mensalmente R$30.000,00 de sua conta pessoal para a conta da Igreja Cruzada dos Milagres dos Filhos de Deus, que por sua vez pagava esse valor à empresa 2M Comunicação (da primeira-dama Sirlange) a título de “publicidade”. O dinheiro ilícito entrava na conta da igreja como “doação” e saía como “despesa de publicidade” — transformando propina em receita empresarial da família Maganhato.

Na casa de Josivaldo e Simone, as buscas da Operação Copia e Cola encontraram R$903.854,00 em dinheiro vivo. Além do dinheiro, foram apreendidos documentos manuscritos na casa de Simone contendo o controle detalhado de pagamentos de despesas pessoais do casal Maganhato — incluindo clube, condomínio, faculdade da filha e haras.

Canal 3 — Os cavalos Princesa, Sheerra e Pampinha

Uma das descobertas mais simbólicas da investigação — e que a população raramente fica sabendo, por conta do sigilo — é a existência de três cavalos do Prefeito Rodrigo Manga mantidos em um haras particular com todas as despesas pagas por Simone Rodrigues Frate de Souza (cunhada do prefeito) com dinheiro de origem criminosa.

A prova vem de mensagens de WhatsApp entre Simone e um funcionário do haras chamado Graciano Morais. Em agosto de 2024, Graciano cobrava Simone pelo pagamento da manutenção dos animais e mencionava que R$4.200,00 eram referentes ao “MANGA” — referência explícita ao prefeito. Em fevereiro de 2025, Graciano enviou a Simone uma fatura em nome de “RODRIGO MANGA” pelos três cavalos — Princesa, Sheerra e Pampinha — e avisou que enviaria a fatura “todos os meses”, por orientação do patrão do haras.

No mesmo período, o próprio prefeito enviou mensagem a Simone pedindo que ela fizesse um pagamento de R$1.620,00 via Pix, sem explicar o motivo — apenas passando os dados da chave. Simone fez o pagamento e respondeu: “Tudo resolvido.” A chave Pix pertencia a Rafael Pinheiro do Carmo — Diretor de Área da Secretaria de Administração de Sorocaba durante o mandato de Manga —, o mesmo Rafael que foi usado como laranja para comprar um imóvel para o casal Maganhato com dinheiro vivo.

PARTE VII

“NÃO CONHEÇO JOSIVALDO” — E AS 116 LIGAÇÕES

Quando Marco Mott foi ouvido pela Polícia Federal, afirmou categoricamente que não tinha contato com Josivaldo Batista de Souza. Era uma declaração falsa. E as provas extraídas do próprio celular de Mott — o mesmo aparelho apreendido na Operação Copia e Cola — destruíram essa versão com uma precisão que não deixa margem para outra interpretação.

O celular de Marco Mott tinha o nome “Bp Josivaldo” (Bispo Josivaldo) salvo na agenda telefônica com três números diferentes. O registro de chamadas entre os dois, no período de 23 de janeiro de 2024 a 27 de março de 2025, revela:

  • Com o número salvo como “Bp Josivaldo”: 21 ligações atendidas, sendo 18 delas por vídeo, entre 23/01/2024 e 24/04/2024
  • Com o número salvo como “Bispo Novo”: 74 ligações atendidas entre 23/05/2024 e 08/11/2024, algumas com mais de 10 minutos de duração
  • Com o número salvo como “Bispo Novo Novo”: 21 ligações atendidas entre 08/11/2024 e 27/03/2025

Total: 116 ligações atendidas entre Marco Mott e Josivaldo Batista de Souza, em pouco mais de um ano. A investigação documentou ainda que, no dia 14 de março de 2024, Marco Mott enviou a localização exata da sua residência a Josivaldo — Condomínio Lago Azul, setor 8, lote 48, em Araçoiaba da Serra/SP. No mesmo minuto, Josivaldo enviou uma fotografia da portaria do condomínio — comprovando que havia ido pessoalmente até lá. Cerca de um mês depois, em 19 de abril de 2024, outro encontro: Marco Mott enviou a localização de um restaurante chamado “Geleia Real”, próximo ao mesmo condomínio. Mais quatro chamadas de vídeo no mesmo dia.

Marco Mott disse à Polícia Federal que não tinha contato com Josivaldo. O celular de Marco Mott registrou 116 ligações com Josivaldo, incluindo visita presencial à sua residência, documentada pela fotografia da portaria. A mentira é demonstrável e demonstrada.

O MPF encerrou sua análise sobre este ponto com uma frase direta: “Trata-se, como se vê, de uma realidade bem distante daquela apresentada pelo investigado MARCO MOTT, por ocasião de sua oitiva perante esta autoridade policial.”

PARTE VIII

IMÓVEIS COM LARANJAS E DINHEIRO VIVO

A lavagem de capitais não ficou restrita à empresa 2M Comunicação. O casal Maganhato também adquiriu imóveis com recursos de origem criminosa, usando uma técnica clássica de lavagem: a interposição de terceiros.

O imóvel da matrícula 194.801 — a compra com laranjas

O casal Rodrigo Maganhato e Sirlange Rodrigues Frate Maganhato adquiriu um imóvel no Parque Residencial Chácara Ondina, Bairro Boa Vista, em Sorocaba (matrícula 194.801 do 1º Oficial de Registro de Imóveis de Sorocaba). Para fazer isso, utilizaram Rafael Pinheiro do Carmo e sua esposa Cláudia Cenci Guimarães como intermediários — o casal apareceu nos registros como os compradores, pagando a entrada de R$182.500,00 em dinheiro vivo. Depois, cederam os direitos do imóvel para os reais compradores: Rodrigo Maganhato e Sirlange.

Rafael era Diretor de Área da Secretaria de Administração de Sorocaba durante o mandato do prefeito. Era o mesmo Rafael cuja chave Pix o prefeito enviou a Simone para que ela pagasse R$1.620,00 sem explicar o motivo. A prova da operação triangulada consta da própria matrícula do imóvel, registrada em 18 de maio de 2021 — pouco mais de quatro meses após a posse.

O imóvel de Votorantim — a triangulação via mãe do prefeito

Em outra operação imobiliária, o casal Maganhato utilizou a mãe do prefeito, Zoraide Batista Maganhato, como intermediária. Zoraide adquiriu um imóvel em Votorantim (matrícula 30.407 do Registro de Imóveis local) pelo valor de R$55.500,00, pago em espécie. No mesmo dia da compra, Zoraide doou o imóvel ao filho e à nora. A investigação apurou que Zoraide não possuía patrimônio que justificasse essa aquisição.

O mecanismo é transparente: a mãe compra com dinheiro fornecido pelo filho (dinheiro de origem criminosa), e doa de volta ao filho no mesmo dia. O imóvel entra no patrimônio do prefeito disfarçado como doação familiar. A falta de patrimônio de Zoraide para suportar a compra desfaz o disfarce.

Os imóveis de Marco Mott — lavagem própria

Marco Mott usou recursos ilícitos para construir um patrimônio imobiliário milionário. A perícia identificou múltiplas operações suspeitas, incluindo: 15 repasses a uma empresa de participações para cobrir a diferença de valor em permuta imobiliária, e 64 transferências para vendedores de um imóvel cujo preço declarado na escritura foi de R$3.000.000,00 — com a parcela à vista de R$1.000.000,00 paga com recursos dissimulados como mútuos de terceiros que nunca foram quitados.

PARTE IX

“É IMPOSSÍVEL NÃO VISUALIZAR” — A CONCLUSÃO DO MPF

Ao encerrar a narrativa dos fatos na denúncia, o Ministério Público Federal resumiu sua conclusão em uma frase que, em linguagem jurídica, equivale a dizer que o esquema é irrefutável:

“…é impossível não visualizar na cadeia de fatos narrados uma sequência de ações criminosas, realizadas com ajuste de desígnios… a conclusão irrefutável da análise de toda investigação é que tudo o que foi exposto nesta peça acusatória é fruto de uma ação concertada do grupo que se formou em torno de RODRIGO MAGANHATO desde que este assumiu a Prefeitura de Sorocaba em 01 de janeiro de 2021, com atos preparatórios que remontam ainda ao período eleitoral.”

Denúncia MPF — fl. 352 — Proc. 5003690-61.2022.4.03.6110 — 27/01/2026

O MPF listou explicitamente 18 elementos de prova que sustentam a existência da organização criminosa — das mensagens de WhatsApp às notas fiscais copiadas da internet, dos depósitos em espécie aos imóveis comprados com laranjas, da contabilidade paralela do bispo ao dinheiro vivo encontrado em duas casas. Cada um desses 18 elementos possui referência documental precisa nos autos.

A denúncia também deixou explícito que este é apenas o começo: os fatos relativos a outros contratos da gestão — envolvendo empresas como MedMais, Cook & Freeze e Phmed, além de saques fracionados em conta da própria prefeitura — serão objeto de denúncias futuras, após conclusão de inquéritos autônomos em andamento. O que foi denunciado em janeiro de 2026 é a parte do esquema que envolveu verbas federais identificadas. O resto virá.

PARTE X — CONCLUSÃO

POR QUE AINDA HÁ PESSOAS QUE ACREDITAM NELE — E O QUE FAZER

Depois de ler tudo isso — o áudio de setembro de 2020, a emergência fabricada, o jantar com os beneficiários da licitação, os 258 depósitos em espécie, os cavalos pagos com propina, as 116 ligações entre quem “não se conhecia”, os imóveis com laranjas, os R$1,8 milhão em dinheiro vivo apreendidos —, a pergunta natural é: como ainda é possível que pessoas acreditem na inocência de Rodrigo Manga?

1. O sigilo é o principal escudo

A resposta mais honesta é o sigilo. O processo corre em segredo de justiça. A maioria da população não tem acesso aos autos. O que circula são os fragmentos que cada lado escolhe divulgar — e o prefeito e seus aliados têm todo o interesse em divulgar apenas a narrativa do vitimismo. Sem acesso ao conteúdo real do processo, parte da população preenche os espaços em branco com a versão que recebe.

2. A confusão entre fases processuais

“Ele ainda não foi condenado” é verdade — mas é enganoso. O Brasil adota o sistema acusatório: o MPF denuncia, o juiz recebe ou rejeita a denúncia, o processo se instrui, e só ao final há condenação ou absolvição. Estar em fase de denúncia não é o mesmo que estar absolvido. É o equivalente a dizer que um réu preso em flagrante ainda não foi condenado — o que é verdade, mas não muda os fatos que o colocaram ali.

3. “A polícia revirousuavida e não achou nada”

Esta é provavelmente a afirmação mais audaciosa dos aliados do prefeito — e a mais fácil de desmontar. A Polícia Federal encontrou: R$883.491,00 na casa de Marco Mott (em duas operações), R$903.854,00 na casa de Josivaldo e Simone, contabilidade paralela com registros de propinas de R$150.000,00 por parcela, faturas de haras em nome do prefeito, documentos manuscritos de controle de despesas pessoais da família Maganhato, notas fiscais idênticas copiadas e coladas de um mês ao outro, contratos simulados de publicidade, imóveis comprados com dinheiro vivo por interpostas pessoas. Isso é o que a polícia encontrou. Quem diz que “não achou nada” ou não leu os autos ou está mentindo.

4. A força das redes de apoio político

Manga ainda conta com apoio político e de base eleitoral. Agentes públicos locais, vereadores, cabos eleitorais — muitos têm interesse na sobrevivência política dele. A defesa da inocência do prefeito não é necessariamente sincera: para alguns, é estratégica. Admitir que apoiaram um prefeito corrupto tem custo político. É mais fácil continuar defendendo.

O que a população pode e deve fazer

A população de Sorocaba tem instrumentos legais para agir. O mais imediato é pressionar a Câmara Municipal pela instauração do processo de cassação de mandato, com base no Decreto-Lei nº 201/1967. A cassação é um processo político-administrativo: não requer condenação criminal definitiva. Requer que os vereadores analisem as infrações e votem. E requer que a população torne esse voto um ato de responsabilidade pública — não de conveniência partidária.

A leitura integral da denúncia na tribuna da Câmara não é simbólica. É estratégica. Coloca cada vereador diante de uma escolha que ficará registrada — na ata, nos jornais e na memória dos eleitores. O sigilo do processo protege os dados sensíveis dos investigados. Não protege os vereadores da responsabilidade pelo que fazem com o que está disponível.

“Em suma, as provas, que incluem documentos contábeis simulados, registros de depósitos fracionados, grande quantidade de dinheiro em espécie apreendida, mensagens eletrônicas evidenciando o direcionamento de atos de ofício, demonstram a existência de uma organização criminosa estruturada, com objetivos definidos, para a prática sistemática de crimes contra a administração pública e a lavagem dos valores obtidos.”

Ministério Público Federal — Denúncia Criminal — 27/01/2026 — fl. 353

NOTA METODOLÓGICA: Esta matéria é baseada exclusivamente nos documentos que integram a Denúncia Criminal do Ministério Público Federal (Proc. nº 5003690-61.2022.4.03.6110, TRF 3ª Região, 27/01/2026), nas peças investigatórias da Operação Copia e Cola (PF, 2025) e nos acórdãos do TCE/SP identificados no processo. Todos os trechos entre aspas são transcrições literais ou sínteses fiéis de documentos com identificação de página, ID e número de autos. Nenhuma afirmação desta matéria é de autoria do redator: são os fatos tal como constam dos autos. O processo tramita sob segredo de justiça (nível 1). O denunciado goza de presunção de inocência até trânsito em julgado. A cassação político-administrativa segue os critérios do Decreto-Lei nº 201/1967, que não exige condenação criminal definitiva.

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