Em meio ao discurso recente de “caça aos traidores”, o governo do prefeito Rodrigo Manga parece adotar um conceito bastante flexível — para dizer o mínimo — do que significa lealdade política.
A mais nova peça dessa engrenagem é Rodrigo Alcantra, anunciado como Secretário de Comunicação. O detalhe que chama atenção não é apenas o currículo técnico (que ainda carece de maior exposição pública), mas sobretudo o histórico político: Alcantra integrou a chapa de Danilo Balas, adversário direto de Manga nas eleições, participando ativamente de uma campanha marcada por críticas duras e bem direcionadas ao atual prefeito.
À época, os ataques giravam, inclusive, em torno de denúncias relacionadas à corrupção — temas que posteriormente vieram a ser investigados pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal. Agora, o responsável por articular esse tipo de narrativa passa a ocupar justamente a função de gerir a comunicação institucional do governo que antes criticava.
A ironia se acentua quando se observa o discurso recente de Manga, que afirma estar promovendo uma espécie de “limpeza” em sua gestão, com o objetivo de afastar supostos traidores. A nomeação de alguém que esteve, até pouco tempo atrás, do outro lado do embate político, levanta questionamentos inevitáveis: o critério é lealdade ou conveniência?
O histórico de Alcantra também inclui atuação como assessor parlamentar do vereador Fernando Dini — figura que, publicamente, manteve uma relação conflituosa com Manga durante o período em que ambos ocupavam cadeiras na Câmara Municipal. A aproximação atual, portanto, parece ignorar anos de divergências e embates políticos.
O movimento sugere que, no atual cenário, antigas posições podem ser rapidamente ressignificadas. Adversários tornam-se aliados, críticas viram credenciais, e o que antes era considerado ataque passa a ser, talvez, experiência estratégica.
Resta saber se essa reconfiguração representa uma estratégia política pragmática ou apenas mais um capítulo de incoerência em uma gestão que, ao que tudo indica, ainda busca definir seus próprios critérios.



