Na noite deste domingo (13), deparei-me com uma publicação no Instagram de um promotor de Justiça sobre o caso do elefante Sandro.
Na publicação, ele citava estudos segundo os quais animais que passaram muito tempo afastados de condições naturais podem, em determinadas circunstâncias, readaptar-se a ambientes mais próximos de seu habitat natural.
Até aí, tudo bem. É perfeitamente legítimo apresentar estudos e defender uma posição diferente.
O problema começa quando uma questão extremamente complexa é tratada como se existisse apenas uma verdade possível.
Ao comentar que considerava uma “idiotice” a decisão envolvendo a transferência de Sandro, fui removido do Instagram pelo promotor, que ainda afirmou que eu poderia “esquecer a amizade dele”.
Confesso que fiquei surpreso.
Eu imaginava estar comentando no perfil de um homem público, alguém acostumado ao contraditório e às críticas, especialmente porque exerce uma função que exige lidar diariamente com diferentes opiniões, argumentos e interpretações.
Mas aparentemente uma crítica foi interpretada como uma ofensa pessoal.
E é justamente aí que está o ponto.
“Idiotice”, no sentido popular da palavra, pode significar uma atitude insensata, tola ou desprovida de bom senso.
Eu não disse que o promotor é um idiota.
Eu critiquei aquilo que considero uma decisão insensata.
E continuo pensando da mesma maneira.
Estamos falando de um elefante idoso, que vive há décadas em Sorocaba, possui uma rotina estabelecida e vínculos com seus tratadores.
A proposta envolve colocá-lo em uma caixa de transporte e submetê-lo a uma viagem de aproximadamente 1.600 quilômetros para um ambiente completamente diferente.
É absolutamente legítimo perguntar:
Esse processo realmente representa o melhor interesse de Sandro?
Existem estudos defendendo a capacidade de adaptação de elefantes? Sim.
Mas isso não encerra a discussão.
Também existem profissionais que questionam os riscos de uma mudança dessa magnitude para um animal idoso, justamente em razão da idade, do histórico individual, da adaptação ao ambiente atual e dos efeitos que transporte, mudança de rotina e novo ambiente podem produzir.
Não estamos falando de uma experiência abstrata.
Estamos falando de um animal específico, com idade específica, histórico específico e condições específicas.
Portanto, não basta dizer:
“Elefantes podem se adaptar.”
A pergunta correta deveria ser:
Sandro, aos 50 e poucos anos, depois de décadas vivendo em Sorocaba, tem condições físicas e comportamentais para passar por esse processo com segurança?
E, principalmente:
Qual alternativa apresenta o menor risco e proporciona a melhor qualidade de vida para ele?
Essa deveria ser a discussão.
Não deveria ser uma disputa entre Ministério Público, Prefeitura, biólogos, veterinários ou defensores de santuários.
E muito menos uma disputa política.
Aliás, achei curioso o argumento de que quem discorda estaria “politizando” o caso.
Discordar de uma decisão do Ministério Público não é necessariamente politizar uma questão.
É exercer o direito ao contraditório e à crítica.
O Ministério Público possui uma função importantíssima na sociedade e deve ser respeitado.
Mas exatamente por exercer uma função pública tão relevante, seus atos também podem — e devem — ser questionados pela sociedade.
Respeitar uma instituição não significa concordar com todas as suas decisões.
E criticar uma decisão não significa atacar pessoalmente quem a tomou.
No caso de Sandro, espero sinceramente que todas as decisões sejam tomadas pensando exclusivamente em uma coisa:
o bem-estar do animal.
Não em quem ganhou a disputa jurídica.
Não em quem conseguiu impor sua interpretação.
Não em quem poderá dizer posteriormente que estava certo.
Porque, no final, Sandro não é uma peça de processo, não é uma bandeira ideológica e não é um troféu institucional.
É um animal idoso.
E se existe uma dúvida razoável sobre os riscos de submetê-lo a uma mudança dessa magnitude, essa dúvida deveria ser discutida abertamente, com todos os especialistas envolvidos e, principalmente, sem transformar quem discorda em inimigo.
Quanto ao termo “idiotice”, continuo utilizando-o no seu sentido literal: uma atitude que considero insensata, tola ou desprovida de bom senso.
E democracia também é isso:
poder dizer que uma decisão pública é, na nossa opinião, uma idiotice — sem que isso transforme automaticamente a crítica em um ataque pessoal.



