TJ-SP analisa nesta quarta-feira pedido de perda do mandato do prefeito de Sorocaba; ao mesmo tempo, primeira-dama disputa vaga de deputada federal em meio às investigações da Operação Copia e Cola
A semana começa com forte tensão política em Sorocaba. Nesta quarta-feira (16), o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) deve analisar a representação criminal que pede a perda do mandato do prefeito Rodrigo Manga. O julgamento ocorrerá justamente em meio à campanha eleitoral de sua esposa, Sirlange Manga, candidata a deputada federal pelo União Brasil.
O processo, apresentado pelo ex-prefeito José Crespo, está sob relatoria do desembargador Fernando Simão. A sessão está marcada para as 13h30, no Palácio da Justiça, em São Paulo. O caso havia sido retirado da pauta anterior por sobra de processos e foi remarcado para esta quarta-feira.
A representação sustenta que Manga teria cometido crimes de responsabilidade e pede que o próprio TJ-SP determine a perda do mandato. Entre os elementos utilizados por Crespo estão fatos relacionados à Operação Copia e Cola, investigação da Polícia Federal que resultou em denúncia do Ministério Público Federal envolvendo o prefeito, Sirlange e outros investigados.
Julgamento no momento mais delicado para o casal
A coincidência entre o julgamento e a campanha eleitoral de Sirlange adiciona uma dimensão política ao caso.
Sirlange disputa uma vaga na Câmara dos Deputados nas eleições de 2026. Segundo dados públicos da campanha, ela já declarou milhões de reais em recursos eleitorais, grande parte proveniente do União Brasil.
Para analistas políticos e especialistas que acompanham o caso, uma das questões que merece atenção é se a candidatura da primeira-dama também representa uma estratégia de blindagem política e jurídica do casal diante do avanço das investigações.
A hipótese levantada é que uma eventual eleição de Sirlange para a Câmara dos Deputados poderia alterar significativamente o ambiente jurídico em torno dela, uma vez que parlamentares federais possuem prerrogativas constitucionais específicas relacionadas ao exercício do mandato e à competência para determinados processos criminais.
Isso, entretanto, não significa que uma eventual eleição produza imunidade geral ou impeça automaticamente investigações. O alcance do foro por prerrogativa de função depende das circunstâncias do crime e de sua relação com o exercício do cargo parlamentar.
Empresa ligada a Sirlange aparece nas investigações
O ponto mais sensível dessa discussão está na própria investigação da Operação Copia e Cola.
Segundo informações divulgadas a partir da denúncia e de documentos judiciais, a empresa anteriormente denominada Sirlange Rodrigues Frate – ME, atualmente 2M Comunicação e Assessoria, aparece nas apurações relacionadas a contratos de publicidade considerados suspeitos pelos investigadores.
Em um dos episódios descritos em decisão judicial, a investigação aponta a existência de um suposto contrato de publicidade entre a empresa ligada a Sirlange e outra empresa, com pagamentos que teriam alcançado R$ 448,5 mil. A Polícia Federal teria identificado indícios de que o contrato era utilizado para dissimular a origem dos recursos.
Em outro episódio relatado pelo Ministério Público Federal, investigadores apontaram pagamentos de aproximadamente R$ 780 mil realizados entre 2021 e 2023 por uma entidade ligada à família de Sirlange. Segundo a investigação, os serviços de publicidade previstos no contrato não teriam sido efetivamente prestados e o instrumento teria servido para justificar a transferência de valores.
A denúncia do MPF descreve Sirlange como integrante do chamado núcleo de lavagem de dinheiro e afirma que ela teria recebido recursos por meio de contratos considerados simulados. Essas são acusações constantes da investigação e da denúncia, e não uma condenação definitiva.
Uma eleição que pode mudar o cenário
É justamente nesse contexto que a candidatura de Sirlange ganha uma dimensão que ultrapassa a disputa eleitoral.
Caso seja eleita deputada federal, ela passará a ocupar um cargo com prerrogativas próprias e estará inserida em uma estrutura institucional completamente diferente daquela de uma cidadã sem mandato.
Para críticos do casal, portanto, a campanha não pode ser analisada apenas como um projeto eleitoral individual. A proximidade entre a eleição, o julgamento do mandato de Manga e o avanço da investigação federal levanta uma pergunta política inevitável: a candidatura representa apenas uma tentativa de conquistar uma cadeira em Brasília ou também pode funcionar como uma forma de ampliar a proteção institucional da família diante dos problemas judiciais que enfrenta?
Não há, até o momento, decisão judicial que estabeleça que a candidatura tenha sido criada com esse objetivo. A interpretação de que haveria uma tentativa deliberada de blindagem é uma hipótese política, que precisaria ser demonstrada por elementos concretos.
Manga também enfrenta momento decisivo
Enquanto Sirlange percorre o Estado em busca de votos, Manga enfrenta uma das decisões mais importantes de seu segundo mandato.
O prefeito já foi alvo de medidas cautelares relacionadas às investigações da Operação Copia e Cola e posteriormente retornou ao cargo por decisão do Supremo Tribunal Federal. A denúncia apresentada pelo MPF o acusa de crimes como organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção, peculato, contratação ilegal e fraude em licitação. A defesa nega as acusações.
Agora, o julgamento no TJ-SP acrescenta uma nova frente de risco: a possibilidade de perda do mandato por meio da representação apresentada por Crespo.
O resultado desta quarta-feira, portanto, poderá ter impacto não apenas sobre o futuro político de Rodrigo Manga, mas também sobre a campanha de Sirlange e sobre a estratégia política do casal para os próximos anos.
Em Sorocaba, a quarta-feira promete colocar no mesmo palco três elementos que se tornaram inseparáveis na política local: o futuro de Manga, a candidatura de Sirlange e as consequências da Operação Copia e Cola.



