Após 44 anos no Zoológico de Sorocaba, o elefante Sandro deixou a cidade em setembro de 2026. Para o biólogo Richard Rasmussen, a responsabilidade pela saída do animal é única e exclusiva do prefeito Rodrigo Manga.
A saída do elefante Sandro do Zoológico Municipal “Quinzinho de Barros” encerrou uma história de 44 anos do animal em Sorocaba — e abriu uma pergunta que permanece: por que a Prefeitura não conseguiu resolver, ao longo desses anos, as condições do recinto que acabaram sendo utilizadas como fundamento para a transferência?
Em uma participação em um bate-papo gravado, o biólogo e apresentador Richard Rasmussen fez duras críticas ao prefeito Rodrigo Manga e afirmou que o município teve tempo para agir.
Segundo Rasmussen, desde 2022 a Prefeitura deveria ter promovido a reforma do recinto de Sandro. Na avaliação dele, Manga teria transformado o caso em uma questão política, enquanto não teria realizado as intervenções necessárias para garantir a permanência do animal em Sorocaba.
“Desde 2022, ele tinha que ter feito a reforma do recinto.”
Rasmussen também relacionou o episódio à atuação anterior de Manga como vereador, citando o caso do chimpanzé Black, que foi transferido do zoológico para um santuário.
Na avaliação do biólogo, Manga teria enxergado a saída de Sandro como uma forma de eliminar um problema administrativo, ao mesmo tempo em que exploraria politicamente a popularidade do animal entre os sorocabanos.
“Ele fez algo para o Sandro ficar, não?”
A questão central: o recinto
Independentemente da opinião de Rasmussen, existe um ponto objetivo que não pode ser ignorado: a adequação do recinto de Sandro esteve no centro da disputa judicial durante anos.
A disputa começou em 2022 e terminou, em junho de 2026, com uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo determinando a transferência do elefante para o Santuário de Elefantes Brasil, em Mato Grosso. O TJ-SP considerou que o recinto não oferecia condições adequadas às necessidades do animal.
A decisão judicial foi baseada, entre outros elementos, em avaliação técnica que apontou problemas de infraestrutura, mobilidade e conforto para um elefante idoso.
E aqui está um dos pontos mais incômodos para a administração municipal: o problema não surgiu em 2026.
Em outubro de 2025, uma emenda apresentada na Câmara Municipal já defendia que recursos fossem previstos no planejamento municipal para permitir a reforma do recinto de Sandro em 2026. O documento classificava a reforma como necessária diante da decisão judicial que determinava a transferência do animal.
A própria Prefeitura reconhecia a necessidade de melhorias
Outro documento oficial torna a discussão ainda mais relevante.
Em janeiro de 2026, documentação encaminhada pelo Executivo à Câmara registrou que o recinto do elefante não era compatível com os requisitos mínimos previstos nas normas aplicáveis, reproduzindo avaliação de fiscalização que apontava inadequações relacionadas às condições do alojamento. O documento também menciona encaminhamentos ao Ministério Público e ao órgão ambiental estadual.
Ao mesmo tempo, a Prefeitura sustentava que Sandro recebia cuidados adequados da equipe técnica do zoológico e que a transferência poderia representar riscos ao animal.
Em agosto de 2025, documento do Executivo também registrava que a equipe técnica defendia a permanência de Sandro e mencionava que mudanças no recinto seriam executadas pela municipalidade.
Mas onde está a reforma?
É justamente nesse ponto que a crítica de Richard Rasmussen ganha força política.
Se a Prefeitura sabia que o recinto precisava ser adequado e se a disputa judicial se arrastava desde 2022, por que uma solução definitiva não foi executada antes que a transferência se tornasse inevitável?
A própria Prefeitura informou, às vésperas da transferência, que melhorias no recinto estavam sendo providenciadas, incluindo a construção de um brete para contenção e manejo do elefante. A administração também afirmou que pretendia continuar realizando melhorias no espaço.
Mas o cronograma chegou tarde.
Em 16 de setembro de 2026, Sandro foi retirado do Zoológico de Sorocaba e levado para o Santuário de Elefantes Brasil, na Chapada dos Guimarães, após uma disputa judicial que se prolongou por anos.
Da promessa de manter Sandro à transferência
Existe ainda uma contradição política que merece ser lembrada.
Em junho de 2026, depois da decisão do TJ-SP, o próprio Rodrigo Manga afirmou publicamente que entraria com recurso para tentar manter Sandro em Sorocaba.
A Prefeitura efetivamente apresentou recursos e pediu a suspensão da ordem judicial.
Na prática, porém, os recursos não impediram a transferência.
E Sandro foi embora.
O que ficou para Sorocaba?
Ficou um recinto vazio, uma homenagem em um painel de LED e uma pergunta que vai muito além da disputa entre Prefeitura, Justiça, ambientalistas e defensores da permanência do animal.
Por que Sorocaba chegou a esse ponto?
Sandro viveu na cidade desde 1982. Durante décadas, o elefante se tornou um dos símbolos do Zoológico Quinzinho de Barros.
A Prefeitura afirma que ele recebeu alimentação, acompanhamento veterinário e manejo especializado durante todos esses anos. O município também diz ter recorrido judicialmente para tentar impedir sua transferência.
Mas a questão que permanece é outra:
se a reforma do recinto era necessária, por que ela não foi concluída antes que a Justiça determinasse a saída do animal?
É nesse intervalo entre o problema conhecido e a solução que não chegou a tempo que está uma das principais responsabilidades políticas que precisam ser explicadas à população.
Richard Rasmussen atribui essa responsabilidade diretamente a Rodrigo Manga.
A Justiça, por sua vez, determinou a transferência por entender que o recinto não oferecia condições adequadas.
E Sorocaba agora tem de lidar com o fato consumado: Sandro foi embora.
Depois de 44 anos, o elefante que se tornou parte da história da cidade não está mais no Quinzinho de Barros.
E a pergunta que fica para a administração municipal é simples:
se havia tempo para reformar, por que não reformaram antes?



